Estímulo à atividade cerebral entra no foco de estudos sobre IA na escola

Pesquisadora do MIT Media Lab convidou estudantes para elaborar redações com e sem auxílio de ferramentas como ChatGPT e Google. Resultados afetam memória.

Foto: Reprodução de internet

Olás, boa semana!

Por José Brito, jornalista e fundador da Pupa Educação Digital.

 

“A humanidade é excelente para criar ferramentas, mas quando o chatGPT foi lançado começamos a ouvir relatos de pessoas que passaram a ter problemas de memória, e pensamos: hummm… interessante”

Nataliya Kosmyna, PhD, pesquisadora do MIT Media LAB

Imagem gerada por IA com Gemini

Toda vez que escrevo o texto da semana fico à procura de um ponto de contato com a frase do momento. Se a conexão está adequada ao mundo em que vivemos. Se o assunto está mais ou menos conectado com as notícias recentes sobre educação, mídia e tecnologia. E nem preciso dizer que está cada vez mais difícil acompanhar a realidade, afinal, o espírito do tempo em que vivemos não é para amadores. Tudo é efêmero. Por vezes, hostil, insuficiente, raso, artificial. Ao mesmo tempo, encantador, novo, prático e funcional. Até rimou. 🙂 Tudo vai e vem em poucas horas ou se materializa por completo numa fração de segundos, como uma obra de arte, única, imaculada, perfeita, como se fosse, basicamente, uma redação nota 1000 do ENEM.

E é sobre isso que gostaria de falar hoje. Sobre a redação. Sobre o conjunto de competências necessárias para elaborar um bom texto, apresentar com clareza um tema, com defesa de ideias, pontos de vista, argumentos, contrapontos, dados, enfim, tudo muito bem empacotado em uma ou outra estrutura narrativa, mas que esteja acompanhada de uma boa e definitiva capacidade de identificar a relevância do que você está falando para a sociedade. E mais, com um jeitinho especial, único, todinho seu, meu caro leitor, minha cara autora de best sellers gptianos.

Contudo, como se lembrar daquilo que você não viveu? Como falar com propriedade sobre um assunto se você não o conhece? Não estudou. Não se preparou. Não escreveu. Como? Se você não faz a menor ideia do que está falando e que um vazio no estômago pode surgir a qualquer momento quando alguém mais preparado que Vossa Excelência atravessa a conversa com uma delação premiada, de próprio punho, com argumentos arrebatadores, incontestáveis, cheios de exemplos, dados, números, histórias pessoais ou até relatos de quem, com certeza, queimou um pouquinho mais os próprios neurônios e produziu algo autoral sobre um tópico de interesse coletivo.

Na reportagem de Álvaro Pereira Júnior, deste domingo, no Fantástico, tive acesso a um experimento da professora Nataliya Kosmyna, especialista em Inteligência Artificial do Instituto Tecnologia de Massachusetts, o MIT. Nele, a pesquisadora convidou 54 estudantes com idade entre 18 e 39 anos do mundo todo para elaborar uma redação em 20 minutos. Dividiu a turma em 3 grupos. O primeiro poderia usar o ChatGPT como ferramenta com IA para apoio. O segundo, o Google, para buscas e pesquisas. E o terceiro, bom, o terceiro somente a própria cabeça. Papel e caneta. Ou teclado, se preferir. Tempo vai, tempo vem e Voilà, c´est fini! Textos elaborados!

Ao final e ao cabo, a pesquisadora deu sequência à sua investigação. Agora, para tentar entender como as redações foram pensadas e o que ficou na memória de quem as produziu. Para tanto, foram colocados equipamentos para monitoramento em tempo real das atividades cerebrais dos jovens. E aí, a surpresa. Ficou constatado que 83% dos estudantes do grupo 1 não sabiam citar uma única frase da própria tarefa. Não lembravam de nada concreto, que comprovasse a linha de raciocínio para criar o texto. Em contraponto, estudantes dos grupos 2 e 3 tiveram maior conectividade cerebral, sendo que o terceiro com ainda mais performance.

Com isso, podemos perceber o oceano ainda a ser percorrido para avançarmos com a mediação de tecnologia nas escolas e no mundo do trabalho. É um trabalho constante. Diário. É preciso resiliência para testar, errar e avançar. É preciso trazer diversidade, pensamento crítico, entender a capilaridade das redes para chegar mais longe e, ao mesmo tempo, não deixar ninguém pra traz. O fato é que já estamos em uma segunda onda no uso destas ferramentas desde o seu surgimento para o mundo em 2023. Pesquisa TIC Educação 2024 revela que 70% dos jovens brasileiros do Ensino Médio já utilizaram ferramentas com IA para tarefas escolares, mas somente 32% com orientação acadêmica dos professores.

Vamos nessa. Confira a reportagem e outras dicas da semana. Aqui eu deixo detalhes da pesquisa do MIT “Your Brain on ChatGPT: Accumulation of Cognitive Debt when Using an AI Assistant for Essay Writing Task” Deixo também uma dica da Sarah Schollmeier, Tiktoker que eu adoooooro, especialista em ENEM, que nesta semana fala sobre a tal da redação nas provas de novembro.

#01 Estímulo à atividade cerebral entra no foco de estudos sobre IA na escola

Link: MIT Media Lab e Fantástico

#02 Brasil avança com legislação que protege crianças e adolescentes na internet

Link: Gov.br

#03 Incentivo à experimentação com IA movimenta mercado no Brasil e estimula colaboração para além do TI em empresas

Link: Bain & Company

#04 Etapa da Olimpíada Nacional de Inteligência Artificial abre caminhos para experiências internacionais e bolsas de estudo

 

Link: 2ª Olimpíada Brasileira de Inteligência Artificial e NOIC

#05 Educa Week será realizada entre os dias 8 e 10 de outubro em SP com novos debates sobre educação e tecnologias

Link: Educa Week 2025

DICA DE LEITURA »

A cena se repete. Em geral, no final do dia, quando a casa começa a se organizar para o desafio da jornada semanal que se aproxima no amanhecer seguinte. Aquele cheirinho do jantar invadindo a sala, criança se preparando para tomar banho, algumas notificações no celular para verificar o calendário das próximas reuniões e o mundo tentando entrar na mesma órbita de uma família conectada com as doces angústias da vida privada.

De repente, o rompante: “Alexa, pára!” Minha filhota de 12 anos interrompe a assistente virtual programada para apresentar a previsão do tempo que se avizinha. Informação importante pra mim. Não sei se para toda família. Boa noite, o tempo no Rio de Janeiro céu claro. Amanhã previsão de 28 º. Pancadas de chuva no final da tarde. Adoooro. Mas acho que sou o único a curtir a informação, que chega de mansinho, no crepúsculo, quase que me dando um “Boa noite, José” cheio de ternura. Corta para o dia seguinte. Café da manhã. Manteiga no pão. O micro-ondas apita. Leite pronto para a mistura com uma dose de pingado. E vem a notificação no tablet. Tum tum. Já me acostumei. Aquele sonzinho de alerta para lembrar do próximo compromisso. Hora de levar a criança para a escola. Como um relâmpago, cruzo olhares com a mesma menina que na noite anterior perdeu a paciência com a previsão do tempo. Agora sinto um pequeno sorriso no rosto, travestido de ironia. É uma piada interna. Acontece todos os dias. E percebemos a invasão de privacidade programada. E como julgamos a todo o momento a tecnologia que, nós mesmos, pedimos para entrar na nossa rotina.

Essa é a dica de leitura da semana. Um livro que li no ano passado, quando comecei minha Pós-Graduação em IA para negócios no IBMEC. Cesar Hidalgo nos provoca com uma série de experimentos em que os avaliados somos nós mesmos. E não somente os dispositivos que invadiram nossa rotina. Sem julgamento. Vale refletir e cada um tirar um suco do que acha melhor para configurar suas rotinas e suas relações.

» How Humans Judge Machines

Autor: Cesar Hidalgo
Editora: MIT Press
Ano: 2021

Beijo e até a semana! 😉

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