O salto recente da Anthropic revela nova fase para conectores e inverte lógica dos assistentes digitais. O trabalho mudou e agora somos nós que precisamos trabalhar melhor e preparar as ferramentas.
Por José Brito, jornalista, fundador da Pupa Educação Digital e professor do Laboratório de IA e Educação Digital do Colégio MOPI
“O que determina a qualidade da entrega com IA é o quanto você sabe do seu próprio campo. Quem tem décadas de experiência em uma área e nunca escreveu uma linha de código pode ter agora uma vantagem real porque o que estes agentes precisam é de alguém que saiba com profundidade o que eles precisam resolver.”
Cris Bartis — jornalista e apresentadora do Podcast Mamilos, Ep. #556 — “IA Agêntica” — maio de 2026.

Imagem gerada com IA com Gemini. Pixel art em fundo turquesa vibrante. No centro, robô maestro roxo com gravata borboleta ergue um batom luminoso conectado por feixes de luz a oito ícones de ferramentas digitais — assistente de IA, Notion, NotebookLM, educação, newsletter, negócios, conectores e agentes. Nos cantos, elementos flutuantes representam os destaques da edição: escola com lupa, globo rachado, joystick com martelo, flor de hibisco roxo e silhueta de menina lendo. Palavras CONTEXTO, CAMPO, CRITÉRIO e VOZ espalhadas pela composição.
Uma pesquisa publicada na revista Management Science, da Wharton School, Universidade da Pensilvânia, trouxe novos indicadores e uma perspectiva ampliada para quem trabalha diretamente com educação, tecnologia, comunicação e formação de equipes. Me senti contemplado. \o/
O estudo do professor Prasanna Tambe analisou mais de uma década de ofertas de emprego e perfis profissionais em empresas públicas americanas e descobriu que, já em 2016, dois terços das vagas que exigiam habilidades algorítmicas não eram para TI: eram para posições de negócios, saúde, marketing e gestão. A tese em questão mostra que as empresas enxergam mais valor na IA quando o conhecimento algorítmico está distribuído entre os profissionais de campo, e não concentrado em departamentos técnicos. “O futuro pertence a trabalhadores bilíngues, fluentes em sua área e fluentes em IA”, resume Tambe. E mais: empresas que distribuem esse conhecimento entre os tomadores de decisão têm avaliações de mercado mais altas. Não porque compraram um software melhor, mas porque construíram algo que os concorrentes não conseguem replicar facilmente: uma força de trabalho que sabe o que fazer com a ferramenta. É aí que o dado traz a diferença.
Outro dia estava organizando novas rotinas por aqui: preparando meus cursos, mentorias, integrando esta newsletter do Radar Pupa, estruturando a captação de leads com e-mails automatizados, conectando ainda o que produzo nas aulas do Laboratório de IA e Educação Digital do Colégio MOPI com o que organizo no Notion e processo no NotebookLM. Quando comecei a montar esses fluxos todos no Claude no modo Cowork, percebi que a minha atuação não estava dialogando apenas com um assistente. Eu, de fato, estava trabalhando para ele, configurando uma camada de organização que antes exigia uma equipe ou um desenvolvedor: conectores, agentes, ações em sequência, integrações entre sistemas. Foi aí que veio o clique. O que mudou não foi a ferramenta. Foi a lógica do meu pensamento computacional. O assistente parou de esperar minhas perguntas e passou a executar as etapas, pois havia orquestrado o conjunto. E o que eu precisei fornecer não foi código: foi contexto, critério e conhecimento de campo, exatamente o que a pesquisa da Wharton descreve como o ativo mais valioso dessa transição.
Na sala de embarque do aeroporto de Congonhas, ouvindo o episódio 556 do Podcast Mamilos, sobre IA agêntica, pesquei a frase da semana com a apresentadora Cris Bartis, que resume com precisão: “O que determina a qualidade da entrega com IA é o quanto você sabe do seu próprio campo. Quem tem décadas de experiência em uma área e nunca escreveu uma linha de código pode ter agora uma vantagem real porque o que estes agentes precisam é de alguém que saiba com profundidade o que eles precisam resolver.” A IA agêntica é a geração de sistemas que precisa mais do que perguntas: precisa ser orientada a agir, decidir, endereçar tarefas com mais autonomia, supervisionada, claro. O salto recente da Anthropic nessa direção, com os conectores do Claude, representa uma das demonstrações práticas mais claras do que isso significa no mercado. Agora somos nós que orientamos a ferramenta para que ela gerencie o trabalho, e o que a torna ainda mais útil é o quanto sabemos do problema que queremos resolver.
O Festival LED trouxe esta questão à tona na semana passada no Píer Mauá, ao conectar a agenda com a sala de aula: o que estamos formando? Minha colega Dora Kaufmann, professora da PUC-SP, levantou a bola na talk “Escola, imaginação e pensamento crítico em tempos de pós-verdade”: a escola que forma apenas para a execução perde o bonde, mas a escola que forma para a pergunta certa, para o contexto, para o julgamento qualificado, está formando exatamente o profissional que a pesquisa de Tambe descreve como valioso. Me lembrei do documentário “Anatomia do Post”, que coloca a sociedade no divã ao mostrar o que acontece quando crianças e adolescentes consomem conteúdo digital sem essa camada crítica, e o quanto isso pesa no tipo de profissional que podem se tornar.
Cada vez mais percebo que a IA é uma tecnologia de propósito geral. Para usá-la com eficácia, precisamos de uma força de trabalho também com propósito geral, pessoas que falem a linguagem do seu campo de trabalho e a linguagem dos algoritmos. Não são duas fluências separadas. Estamos aprendendo fazendo, errando, configurando um conector que não funciona, reformulando um briefing até que o tal do agente entenda o que você quer. E isso é de cada um de nós. Vem com a trajetória, do repertório, do contexto que nenhum modelo tem por padrão. Isso é o que sobra pra gente como a gente por enquanto. E já é um bom começo.
📌 Fontes: Wharton — Reskilling the Workforce for AI | Mamilos #556 — IA Agêntica | Rafael Parente — “Encontre o seu molho” | Festival LED — Fundação Roberto Marinho
Confira os outros destaques da semana e a dica de leitura! 😉

#1 — Festival LED: escola, imaginação e pensamento crítico em tempos de pós-verdade
A 5ª edição do festival queridinho carioca reuniu educadores, pesquisadores e comunicadores no Píer Mauá, com foco no papel da escola na formação de leitores críticos num cenário de amadurecimento acadêmico sobre IA.
🔗Fonte: Fundação Roberto Marinho — Festival LED

#2 — DCN Global lança série no YouTube sobre desinformação na era digital
A rede internacional de 20 mil profissionais digitais estreou “The Disinformation Diaries”, série produzida por Alexandre Sayad e dedicada a entender como a desinformação opera, circula e se instala nas sociedades contemporâneas.
🔗Fonte: DCN Global

#3 — Jornalista da BBC Brasil transforma Lei de Acesso à Informação em jogo
Luiz Fernando Toledo criou uma experiência lúdica para ensinar como a LAI funciona na prática. A iniciativa parte da interseção entre jornalismo e design de aprendizagem. Me lembrou Keystone Kapers, do saudoso Atari 😉
🔗Fonte: LinkedIn — Luiz Fernando Toledo

#4 — Vibe coding: quando programar virou conversa e o que isso muda na educação
Nova IA do Google que cria e edita vídeos a partir de comandos de texto levanta questão: o que significa escrever código quando a ferramenta já faz a maior parte do trabalho com o refino do prompt?
🔗Fonte: Opinion AI — Substack | Tecnoblog

#5 — Competências digitais e a nova onda que desafia a autenticidade humana. Leia artigo de Rafael Parente
Pesquisador reflete sobre a importância da perspectiva própria e da capacidade de contribuir com o que os modelos de linguagem não conseguem gerar por encomenda.
🔗Fonte: Rafael Parente — “Encontre o seu molho”

DICA DE LEITURA » 📚
Hibisco Roxo
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2025

Descrição: Capa com fundo roxo intenso. Silhueta feminina negra de perfil, com turbante geométrico vermelho e preto em estilo africano, ocupa o centro da imagem. O título “Hibisco roxo” em letras brancas cursivas e o nome “Chimamanda Ngozi Adichie” em destaque no topo. Logotipo da Companhia das Letras no canto superior direito.
Tenho organizado aqui ao longo de todas as edições do Radar Pupa uma coletânea de livros. Esse tem sido um dos maiores prazeres ao escrever a newsletter. Cada conexão literária, cada referência com o perfil dos autores, ou até mesmo uma dica aleatória tem feito sentido pra mim.
Hoje vamos de Hibisco Roxo, o romance de estreia de Chimamanda Ngozi Adichie, com a sensibilidade para mostrar o que acontece quando alguém descobre que tem uma voz própria. Neste caso, Kambili, que tem quinze anos, vive numa família de aparências impecáveis na Nigéria e quase não consegue falar. Seu pai é um homem respeitado, religioso, bem-sucedido, e profundamente violento.
Trago este livro numa edição sobre IA agêntica e autenticidade profissional não por acaso. Quando percebemos em nossas relações, seja com quem está por perto, ou com os assistentes na rotina, o que sobra de mais valioso pra gente é justamente identificar nosso pensamento, nossa voz, nossa atitude.

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