Você já foi convencido por um eleitor que não existe?

Avatares sintéticos testam mensagens políticas e desafiam fiscalização sobre IA. Brasileiros estão entre populações mais expostas e as que menos conseguem se defender, diz estudo.

Por José Brito, jornalista, fundador da Pupa Educação Digital e professor do Laboratório de IA do Colégio MOPI.

“Até dois anos atrás, os indivíduos achavam que conseguiam identificar deepfakes porque, nos vídeos, as pessoas apareciam com seis dedos, com uma orelha faltando etc. As pessoas se acostumaram com sinais que hoje em dia nem são mais apresentados.”

Andrea Rozenberg — Diretora de Mercados Emergentes da Veriff, em reportagem para o jornal O Globo, maio de 2026, “IA que engana: brasileiro não consegue identificar deepfakes apesar de altamente exposto a vídeos sintéticos”

 

Imagem gerada por IA com Genini. Pixel art em fundo verde-petróleo. Três robôs humanoides — uma senhora negra, um fazendeiro e uma jovem loira — exibem placas de circuito no peito e a legenda “AVATARES DE IA” numa urna eleitoral ao fundo, sobre uma tela rachada. Ao redor, ícones de TV, rádio, redes sociais, escudo do ECA Digital, troféu Pulitzer com figura feminina loira e símbolo ♀, e palavras em português com uma criança lendo e segurando um celular.

 

Duas reportagens publicadas no jornal O Globo desta semana me chamaram a atenção. A primeira, de Rafaela Gama, com dados do Sonar, A Escuta das Redes, tem um título que poderia muito bem estar nos cinemas ou em uma série pra maratonar no streaming: “Guerra de Avatares”. A segunda, de Bruno Romani, traz um dado mais revelador sobre o tamanho do problema que se avizinha para este ano eleitoral: segundo pesquisa da Veriff, empresa de tecnologia especializada em verificação de identidade digital e combate a fraudes online, 80% dos brasileiros já se depararam com deepfakes no ambiente digital. Este número está acima da média internacional de 60%. E mais do que isso. O dado preocupante não é o da exposição. É o da capacidade de detecção: apenas 29% conseguem identificar quando um vídeo é falso, e somente 35% reconhecem corretamente quando um vídeo é real.

Esta dificuldade de detecção não pode mais ser tratada como simples falta de atenção. Estamos falando de um novo fenômeno. A tecnologia está evoluindo muito rápido e, junto com ela, os riscos sobre o que é real ou virtual. Andrea Rozenberg, da Veriff, explica que até dois anos atrás as pessoas achavam que conseguiam identificar deepfakes por sinais visuais, como seis dedos na mão, uma orelha faltando ali, distorções no cabelo, efeitos de luz… Esses erros grosseiros não existem mais.

É nesse contexto que a “Guerra de Avatares” vem acontecendo: há algumas semanas surgiram na rede personagens como “Dona Maria”, uma mulher idosa e negra que critica o governo Lula; e “IAsmina”, uma jovem branca, loira, com sotaque mineiro e publicações sobre temas como a queda do desemprego no Brasil. Estes são apenas dois exemplos de tantos outros que estão movimentando tribunais e denúncias nos bastidores da política.

Entra em cena um novo conceito chamado synthfakevídeos que representam a nova fronteira da desinformação, e são exatamente o tipo de conteúdo mais desafiador para regulação, detecção e letramento midiático. Afinal, o que era deepfake — aquela mídia criada por IA que manipula ou substitui a imagem, voz ou expressões de uma pessoa real — passa a se confundir com algo inteiramente gerado por IA, sem necessariamente partir de uma foto de alguém de carne e osso. Tá mais difícil.

Parte do processo democrático de escuta e persuasão está sendo substituído por simulações. Não se testa simplesmente uma mensagem com a melhor proposta ou plataforma de governo. Agora a corrida é com a velocidade do engajamento com avatares, seu impacto direto, e o que esta sinergia com o pensamento de diferentes perfis de eleitores pode gerar. A chave é a simulação de autenticidade popular. E novamente estamos diante do paradoxo entre o que somos, como queremos ser vistos e o que pensam de nós ao usarmos a tecnologia.

Na mesma semana, ouvi no meu podcast preferido, o “Foro de Teresina”, da revista Piauí, que o CGI.br revelou que as plataformas de internet já são o principal meio de acesso à informação no Brasil, superando rádio e televisão. Vejam só, justamente para nos mostrar que o ambiente onde os avatares circulam é exatamente aquele onde a maioria dos brasileiros forma sua opinião. A Agência LUPA documentou que os primeiros 30 dias do ECA Digital foram dominados por narrativas alarmistas e campanhas coordenadas de desinformação em redes sociais e grupos de mensagem. Em resposta, o governo reclassificou o YouTube de 14 para 16 anos, muito influenciado pelas novelinhas de frutas que viralizaram entre crianças e adolescentes. E uma pesquisa inédita da OCDE mapeou pela primeira vez o impacto de telas no aprendizado de crianças de 5 anos no Brasil, com 53% das famílias raramente lendo para seus filhos.

Para acalmar a alma, uma luz no fim do túnel. Nesta semana saiu o resultado do Pulitzer de Serviço Público de 2026, conquistado pelo Washington Post com uma série de reportagens assinadas por Hannah Natanson, uma das jornalistas que foram alvo direto de ataques de Donald Trump. Parece redundância, mas o fato me lembra sempre porque ainda estamos aqui. O bom jornalismo ainda existe, ainda resiste e ainda faz diferença.

Fontes: Guerra de Avatares — O Globo / Rafaela Gama | IA que engana — O Globo / Bruno Romani | Veriff — pesquisa deepfakes Brasil | CGI.br — Plataformas superam rádio e TV | Agência LUPA — ECA Digital | YouTube reclassificado — G1 Pulitzer 2026

 

Confira os outros destaques da semana e a dica de leitura! 😉

#1 Internet supera rádio e TV como principal fonte de informação no Brasil.

Plataformas digitais já são o principal meio pelo qual os brasileiros acessam notícias e informação. Dado explica por que os avatares eleitorais circulam com tanta eficácia.

Fonte: CGI.br

#2 Pesquisa inédita da OCDE revela impactos do uso de telas no aprendizado de crianças com 5 anos de idade

Levantamento sobre primeira infância realizado em São Paulo, Ceará e Pará traz dados sobre habilidades de literacia, numeracia, socioemocionais e funções executivas.

Fontes: Estadão | Agência Brasil

#3 ECA Digital: desinformação, campanhas coordenadas e YouTube reclassificado marcam primeiro mês da Lei

Observatório da Agência Lupa monitorou narrativas alarmistas e campanhas coordenadas contra aplicação da nova lei. Governo reclassifica Youtube para 16 anos.

Fontes: Agência LUPA | G1

#4 Especialistas apontam virada de maturidade sobre aplicações com tecnologias na educação

No Bett Show Brasil lideranças alertam que sistema de tecnologia educacional brasileiro não está mais deslumbrado com soluções mágicas. Leia na íntegra.

Fonte: Bett Show Brasil

#5 Jornalista alvo de Trump ganha o Pulitzer de Serviço Público de 2026

Série de reportagens do jornal “The Washington Post” revelou impactos dos cortes federais em agências americanas durante primeiros meses da nova administração.

Fonte: G1

DICA DE LEITURA 📚

Aos pés da letra

Autor: Gregorio Duvivier
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2026
Descrição: Capa com fundo verde-petróleo escuro. Título “Aos Pés da Letra” em letras manuscritas grandes e expressivas, traço irregular em rosa-salmão, ocupa quase toda a área. No alto à direita, “Gregorio Duvivier” em fonte sem serifa; no rodapé, logotipo da Companhia das Letras e a linha “Depois da peça O Céu da Língua” em itálico.

 

Comprei ingressos para minha família ver a peça do Gregório “O Céu da Língua”. Por caprichos do destino ainda não consegui assistir. Não me fiz de rogado e comprei logo o livro. Puro suco de Brasil recheado com a essência que nos trouxe até aqui. Leitura leve, inteligente e urgente. Quem entende como as palavras funcionam, de onde vêm, o que carregam, ou ainda como manipulam a sociedade, tem uma ferramenta que nenhum eleitor sintético consegue replicar: a análise crítica e a interpretação da piada. Bora pra frente porque seria tudo mais engraçado, se não fosse trágico.

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