Publicidade de apostas online na CazéTV durante Copa do Mundo reacende debate sobre meio, mensagem e responsabilidade de plataformas digitais e IA
Por José Brito, jornalista, fundador da Pupa Educação Digital e professor do Laboratório de IA e Educação Digital do Colégio MOPI, no Rio de Janeiro.
“Tecnologia é vida. Em geral nós tememos o que não compreendemos. Muitas vezes, não entendemos a IA generativa e a consumimos sem ter ideia do que estamos fazendo. E pagamos um preço caríssimo por isso. Hoje não falamos mais do direito fundamental à realidade e, sim, do direito à realidade autêntica.”
Edilene Lôbo — especialista em Processo Penal, professora da PUC-Minas, ministra substituta do TSE e primeira mulher negra a integrar a corte eleitoral brasileira.

Ilustração em pixel art no estilo retrô 16-bit com fundo roxo escuro. Ao centro, uma TV antiga iluminada exibe uma bola de futebol com moedas à esquerda e um cérebro metade orgânico, metade circuito à direita. Dois robôs flanqueiam a tela: à esquerda, um com adornos indígenas segura uma lupa; à direita, uma robô com cabelo afro aponta para a tela. Ícones ao redor representam letramento digital, alerta financeiro, integridade eleitoral e a dica de leitura da edição.
Aaaaaauuuuuuutoriza o árbitro, começa o jogo!!! E vem mais 45 minutos de futebol. Tela dividida. Bola rolando. Milhões de aparelhos conectados, o meu inclusive. Nos últimos anos, Casimiro Miguel e sua equipe reinventaram os padrões de relacionamento com a audiência e também com o mercado publicitário. Grandes marcas que até bem pouco tempo faziam fila para anúncios em horário nobre na TV aberta exploram agora novos formatos de engajamento com a relação direta com influenciadores do universo digital. Até aí, nenhuma novidade.
Casimiro é sócio da LiveMode e fundador da CazéTV, canal digital que transmite grandes eventos esportivos, incluindo Copa do Mundo. Nesta semana, a CazéTV bateu recorde mundial com cerca de 21 milhões de dispositivos simultâneos em Brasil x Japão, alcançando o maior pico de audiência da história do YouTube em transmissões ao vivo.
No entanto, o que trouxe debate recentemente foi o festival de indicações para apostas online misturado com a publicidade durante estas transmissões. O que parece dica de amigo, na verdade, é conteúdo pago. E aí começa a necessidade de acesso à informação para separar o joio do trigo. Falo isso pois além de jornalista e professor, sou pai de uma pré-adolescente que até agora não conta com classificação indicativa para assistir jogos de futebol via internet. Talvez nem precise no futuro, mas algo pode ser feito agora. Pois é. Chegamos neste ponto. O que é meio, o que é mensagem, o que é indicação de alguém com credibilidade, o que é publicidade. A questão ganhou outras praças e foi parar novamente no Congresso Nacional. E isso tem tudo a ver com as escolhas que fazemos sobre a informação e que decisões tomamos no ambiente digital.
Nesta semana estive na PUC-Rio para o evento “Jornalismo.IA: eleições na era da inteligência artificial”, organizado pela Redes Cordiais e pelo Instituto Tecnologia e Sociedade Rio, com apoio do Consulado da Alemanha no Rio. O auditório reuniu jornalistas, pesquisadores, representantes da Justiça Eleitoral e especialistas em tecnologia para discutir o que a inteligência artificial está fazendo, e vai fazer, com a propaganda do próximo ciclo eleitoral de 2026.
A abertura ficou com Edilene Lôbo, especialista em Processo Penal, professora da PUC-Minas e ministra substituta do TSE, a primeira mulher negra a integrar a corte eleitoral brasileira. Entre tantas conquistas recentes, ela falou da apropriação de dados sensíveis do eleitorado como o “novo petróleo” e colocou no centro do debate uma virada conceitual importante: não falamos mais, simplesmente, do direito fundamental à realidade que encontramos nas ruas, mas do direito à realidade autêntica, muitas vezes disfarçada de promoção na internet. A recomendação de conteúdo que encontramos nas plataformas digitais e nos grupos de WhatsApp, incluindo os links de transmissão de grandes eventos como a Copa do Mundo, chega revestida de outras mensagens que ultrapassam o fenômeno da cultura pop.
Os números do Procon-SP ajudam a entender a dimensão do problema. Uma pesquisa realizada com 2.724 consumidores entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 aponta que 4 em cada 10 apostadores se endividaram após apostas online, que 56,6% se sentem influenciados por propagandas com celebridades ao apostar e que 30% comprometem mais de R$ 1.000 por mês com bets. Esses números colocaram em xeque um modelo de publicidade que, na prática, mistura entretenimento e incentivo ao consumo. A CazéTV já anunciou nesta semana que comentaristas não indicarão mais apostas durante os jogos desta Copa. Importante passo. Por outro lado, o governo sinalizou exigência de alertas de dano nas propagandas. O Ministério da Justiça abriu investigação por possível publicidade abusiva. O debate vai longe.
Precisamos falar sobre isso porque já vimos esse filme antes. Eu me lembro bem. Durante décadas, a publicidade do cigarro foi um espetáculo de sedução: os comerciais da marca Hollywood com surfistas e esportes radicais no deserto da Namíbia, a logo da Marlboro colada nos carros de Fórmula 1, incluindo a McLaren de Ayrton Senna, e toda a lógica da cerveja brasileira regada a mulheres de biquini e brindes na praia.
De lá pra cá foi preciso alguém gritar. E a sociedade, a ciência e a regulação ligaram um alerta. Não porque as pessoas não pudessem fumar, beber ou assistir corridas, mas porque o modelo de exposição cruzava uma linha: induzia ao consumo sem informar os riscos e mirava quem ainda não tinha ferramentas para fazer escolhas conscientes.
A aposta online é a nova fronteira dos jovens. Pode viciar, pode endividar, e a linha entre entretenimento e armadilha financeira é tênue demais para ser deixada de lado. Uma criança ou adolescente pode assistir a uma partida de futebol pelo YouTube e, no mesmo ambiente, estar exposta a um modelo de publicidade de bets sem nenhum limite equivalente. Se uma cerveja não pode anunciar em canal infantil, como devemos pensar nos próximos passos para a publicidade de apostas na internet? Temos informação suficiente para propor um ajuste de rota, ainda mais com modelos preditivos com IA ampliando o alcance dessa indução. E esse ajuste tem tudo a ver com o letramento digital para acesso à informação que foi debatido no evento da PUC.
Cada geração será mais digital que a anterior. Por isso a recomendação de conteúdo que recebemos, em campanhas eleitorais, em transmissões de futebol, em feeds de redes sociais, precisa ser enfrentada com preparo. A qualquer momento, em qualquer tela, estamos sendo dirigidos por algum sistema que tem interesse no nosso clique, no nosso voto ou no nosso dinheiro. A pergunta que fica desta semana é simples e urgente: quem nos prepara para isso?
Deixo aqui um salve para Raphael Kapa, da Agência Lupa, Victor Vicente, diretor de projetos do Redes Cordiais, e Karina Santos, do Instituto Tecnologia e Sociedade. Encontrei os três no evento e esquecemos da foto. rsrsrs
Boa leitura!

#1 Jornalismo e eleições na era da IA
Redes Cordiais e o ITS Rio reuniram jornalistas, pesquisadores e representantes da Justiça Eleitoral para debater regulação e integridade eleitoral diante da IA.
🔗 Fonte: Redes Cordiais

#2 A Copa das bets e a nova fronteira da publicidade online
Carolina Terra, da ECA/USP, e Mauricio Stycer, da Folha, analisam o caso da promoção das apostas durante a Copa do Mundo na CazéTV e as mudanças na legislação.
🔗 Fonte: Café da Manhã — Folha de S.Paulo | Spotify

#3 Educação midiática entra em nova fase: da atenção
A pesquisadora Renee Hobbs, da Universidade de Rhode Island, revela que estudantes precisam entender a economia da atenção das plataformas. Uma habilidade cívica, não apenas pedagógica.
🔗 Fonte: Renee Hobbs — Substack

#4 Porvir reúne ferramentas de IA para planejamento de aulas
Cinco ferramentas para ajudar professores a planejar aulas, criar avaliações e produzir materiais com apoio de IA generativa: Curipod, Gamma, Wepik, Question Well e Eduaide.
🔗 Fonte: Porvir

#5 MEC inicia pesquisa nacional sobre a lei dos celulares nas escolas
Debate sobre uso de telas e educação ganha dimensão de política pública baseada em evidências com novo levantamento após um ano da restrição dos celulares nas escolas.
🔗 Fonte: Jornal de Brasília

DICA DE LEITURA 📚

Capa do livro Brasil: Uma Biografia, de Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling, publicado pela Companhia das Letras. Fotografia em preto e branco mostra operários trabalhando sobre uma estrutura curva de concreto armado, em perspectiva que sugere a construção de Brasília. Na parte inferior, título em letras grandes douradas e brancas sobre fundo preto.
Livro: BRASIL, UMA BIOGRAFIA
Autoras: Lilia Schwarcz e Heloisa Starling
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2023
Estive com Lilia Schwarcz durante uma série de entrevistas sobre história do Brasil. Lá se vão uns dez anos. Agora ela ocupa a cadeira de número 9 na Academia Brasileira de Letras. Acompanho no insta. Sempre com boas reflexões sobre as jornadas e percalços que nos trouxeram até aqui. Ao longo do tempo, cada conquista social, cada mudança na legislação, cada novidade tecnológica tem um caminho histórico que levou décadas para se consolidar. O Brasil que regulou a publicidade do cigarro e da bebida, que criou o Código de Defesa do Consumidor, o Marco Civil da Internet, o ECA Digital, que construiu a urna eletrônica e o sistema eleitoral que é referência no mundo. Nada disso foi por acaso. Tivemos disputas, retrocessos e avanços, exatamente como Lilia Schwarcz e Heloisa Starling narram em Brasil: Uma Biografia. O que estamos fazemos agora, no debate sobre plataformas, sobre publicidade, sobre letramento digital, é pauta para a próxima biografia deste país. E ela ainda está sendo escrita.

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