Estudo publicado pela Harvard Business Review mostra que a economia da atenção agora também se mede pelo tempo que dedicamos a coordenar agentes digitais e suas tarefas
Por José Brito, jornalista, fundador da Pupa Educação Digital e professor do Laboratório de IA e Educação Digital do Colégio MOPI, no Rio de Janeiro.
“A tecnologia sempre alimentou a ilusão de que somos multitarefas, mas agora a IA leva esse engano para outro patamar. A moda é coordenar diferentes agentes e modelos para tentar ganhar produtividade, mas com um custo mental absurdo.”
Diogo Cortiz — cientista cognitivo, professor da PUC-SP e colunista do UOL

Ilustração em pixel art estilo retrô 16-bit, com fundo roxo escuro. Ao centro, um robô de IA cinza-esverdeado aparenta exaustão, com os olhos semicerrados e uma mão apoiada no rosto, envolto por um brilho suave verde-menta e dourado. Ao seu redor flutuam janelas de tarefas sobrepostas, um balão de chat, um gráfico, um código, uma engrenagem e uma pequena ampulheta ao lado da mão livre. Paleta em roxo, verde-menta e dourado, sem texto na imagem.
Quem me conhece sabe que uma das coisas que mais gosto de fazer é tomar uma xícara de café, preferencialmente, expresso, curto e sem açúcar, para desfrutar de uma boa leitura. Costumo fazer isso sentado na varanda de casa com meu tablet nas mãos para ler notícias todas as manhãs. Gosto do design da edição impressa dos jornais na versão digital. Por vezes, estou acompanhado do meu exemplar de assinante da revista Piauí. Em outras ocasiões, são os livros de cabeceira que estão por perto.
O mesmo conjunto de leituras não me impede de observar o mundo, conversar com as pessoas, verificar outras fontes e até contar com um agente de IA que faz um apanhado global das principais manchetes do noticiário, cruza informações com campos do meu interesse, traz uma pitada de conselhos para minha empresa de consultoria, e ainda analisa tendências e oportunidades em novos negócios. Tudo isso não por acaso. Recebeu instruções exaustivamente pensadas em algum momento recente da linha do tempo em nosso relacionamento aberto com ferramentas de IA. Provavelmente, enquanto tomava outro café.
Há alguns anos, na mesma varanda de casa regada a cafeína e notícias, passei a observar a vizinhança. Certo dia, fixei o olhar especificamente no quarto de um dos apartamentos do prédio ao lado do meu. A TV estava ligada. Com o tempo percebi um padrão. Manhã, tarde e noite e o aparelho sempre conectado. Ao ver a cena repetidamente após semanas, comentava com minha filha. Caramba, o cérebro daquela moça deve fritar de tanto ver televisão.
Me lembrei desta expressão nesta semana ao ler um artigo do meu colega Diogo Cortiz no LinkedIn sobre o custo mental que passamos a enfrentar para supervisionar os agentes de IA. E como os nossos cérebros, a depender da exaustão, iteração, irritação ou busca pela perfeição, podem caminhar desenfreadamente a uma condição de “fritura”, como imagino estarem hoje em berço esplêndido os neurônios da minha vizinha. RIP.
Parece brincadeira, mas o conceito está ganhando debate e faz parte de um levantamento da Boston Consulting Group, realizado com mais de 1.400 trabalhadores nos Estados Unidos. A pesquisa analisou informações sobre o uso de IA no trabalho com medidas de cognição e emoção. 14% dos entrevistados relataram sentir esse “cérebro frito”, uma fadiga aguda dos mecanismos de atenção e memória de trabalho, diferente do burnout, que é exaustão emocional ligada ao volume e ao sentido do trabalho.
O curioso não foi a alta demanda por tecnologia com IA, recentemente estimulada por empresas de diferentes setores, e sim o ajuste de rota com o uso da tecnologia. O CTO da Uber, Praveen Neppalli Naga, declarou que, em menos de quatro meses, a empresa consumiu todo o valor que tinha planejado gastar com computação e IA para o ano de 2026. O que chama a atenção agora é a necessidade de supervisão e atenção com as mesmas ferramentas ao longo da jornada de trabalho: quem precisa monitorar de perto o que a IA faz gasta 14% mais esforço mental e sente 12% mais fadiga. Usar IA para tarefas repetitivas, por exemplo, chegou a reduzir o burnout em 15%, mas a supervisão intensa produziu o efeito oposto e, nestes casos, a produtividade caiu vertiginosamente depois que a iteração passou de um para mais de quatro agentes simultâneos.
O fato é que se conseguimos otimizar processos com IA, ótimo. Esse é um caminho. Se não temos necessidade de algum atalho com a tecnologia, melhor ainda. Talvez seja esse um ponto de inflexão da jornada. Se precisamos ir e vir 30 vezes para os agentes funcionarem a contento, podemos rever a quantidade de tarefas que, de fato, precisam ser terceirizadas e outras que só precisam de uma pausa para o café. ☕
📌 Fontes: [Diogo Cortiz — UOL Tilt] e [Harvard Business Review — When Using AI Leads to “Brain Fry“
Confira os outros destaques. Boa Leitura!

#1 Brain fry: supervisionar a IA também cansa
Quem supervisiona IA de perto gasta 14% mais esforço mental e produtividade cai a partir da quarta ferramenta com agentes digitais usada ao mesmo tempo, revela estudo
🔗 Fonte: Boston Consulting Group e Diogo Cortiz LinkedIn

#2 Novo curso de IA no AVAMEC com referenciais da UNESCO
MEC lança curso gratuito com foco em educadores do 6º ao 9º anos para revisão de práticas docentes com uso de inteligência artificial para crianças e adolescentes
🔗 Fonte: AVAMEC, Maria Rehder LinkedIn

#3 Desinteresse por notícias traz sinal de alerta para combate à desinformação entre jovens
Digital News Report 2026, do Reuters Institute, aponta para convergência do jornalismo com criadores de conteúdo pela busca de atenção dos consumidores
🔗 Fonte: Reuters Institute e Maria Carvalho LinkedIn

#4 Amy Bruckman e a reinvenção da sala de aula com IA
Como formar profissionais de meio de carreira se, no início da jornada profissional da nova geração, a IA já faz boa parte do trabalho por ela?
🔗 Fonte: Youtube TEDx

#5 NotebookLM entra na onda dos vídeos curtos e lança novo recurso audiovisual para documentos em textos
Google lançou o recurso Short Video Overviews no NotebookLM, que gera vídeos verticais de até 60 segundos, com narração e ilustrações por IA. Vale experimentar.
🔗 Fonte: Café com bytes

DICA DE LEITURA 📚
Livro: GRANDE SERTÃO: VEREDAS [Edição especial 70 anos]
Autor: João Guimarães Rosa
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2026

Capa da edição especial de 70 anos de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, publicada pela Companhia das Letras. Slipcase com textura de fibra natural trançada (estilo juta/palha), com uma pequena tecelagem colorida entremeada na lombada, lembrando um tear ou porta de sertão. Título em letras pretas maiúsculas ao centro, nome do autor no topo e selo “Edição Especial 70 anos” logo abaixo do título.
Já encomendei minha edição de gala. Vai chegar em alguns dias. Fiquei emocionado com o aniversário de uma das grandes obras da literatura brasileira e, como faço todas as semanas, procuro traçar aqui algum paralelo entre o que está acontecendo no mundo tecnológico com as leituras que cruzam nossos caminhos
Grande Sertão: Veredas é o oposto do que estamos vendo por aí. O oposto de qualquer resumo automático, de um vídeo de 60 segundos ou do que os agentes digitais são capazes de entregar. É uma obra que só entrega o que tem a oferecer para quem se dispõe a ficar com ela, sem pressa e sem atalhos. É preciso tempo e atenção plena para curtir e entender as memórias de Riobaldo e Diadorim e suas relações umbilicais com a paisagem sertaneja. Puro suco de Brasil nas páginas da história. A edição comemorativa traz trechos inéditos sobre o mestre Guimarães Rosa, ensaios e rascunhos que antecedem a forma final do romance, com depoimentos de leitores ilustres como Mia Couto, Milton Hatoum e Itamar Vieira Junior.

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