Quando foi a última vez que você colocou 10 palavras no campo de pesquisa do Google?

Hoje, a consulta mediana na Perplexity tem em torno de 10 a 12 palavras, contra 2 ou 3 nos buscadores tradicionais, afirma Diretor de Negócios da plataforma, Dmitri Shevelenko

Por José Brito, jornalista e Fundador da Pupa Educação Digital.

 

“A maior mudança que estamos vivendo é essa era de perguntas e respostas em linguagem natural no lugar de links. A média de palavras na Perplexity é de 10-12. Quando foi a última vez que você colocou 10 palavras no Google? Não é uma concorrência direta. É mais sobre expandir a utilidade da internet e fazer as pessoas usarem de um jeito que nunca imaginaram”

Dmitri Shevelenko, Chief Business Officer na Perplexity, em depoimento ao podcast Hipsters ponto tech

 

Imagem gerada por IA com Gemini

 

Escrevo o artigo desta semana direto da cidade de Londrina, no Paraná, onde participo de uma série de oficinas de IA e Educomunicação com jovens do projeto “Núcleos de Cooperação Socioambiental”, organizado pelos times do Itaipu Parquetec.

Assim como Londrina ampliou seu reconhecimento de capital do café no norte do Paraná para se tornar um polo sofisticado de serviços e tecnologia, a busca na internet também está migrando das infinitas listas de links para um ecossistema mais refinado de respostas, com filtros e agentes que organizam as fontes da informação

É claro que é preciso cautela e uma boa dose de inquietude para vivenciar essas mudanças. É o que estou fazendo. E foi exatamente isso que levei para os encontros com os alunos, quando foram instados a pesquisar temas ligados ao território e identificar fontes confiáveis entre reportagens, perfis em redes sociais e dados de órgãos públicos ou institutos de pesquisa.

O ponto de virada foi perceber a quantidade de palavras e perguntas que o grupo usava nas pesquisas, quase sempre com modelos de IA integrados, como ChatGPT, Gemini, Claude, Grok ou Perplexity.

Fizemos diversos experimentos para verificar o refino dos comandos. Divididos em grupos de trabalho, os estudantes precisavam atravessar 5 etapas para qualificar uma pesquisa. E todas realizadas de uma forma conversacional com a IA.

O principal desafio, claro, era evitar o “Copia e Cola” e desenvolver com os jovens um senso crítico para qualificar a informação. Foi aí que veio o clique. Muitas vezes, as respostas prontas, com aqueles textos maravilhosos não funcionavam porque não era possível ter a confiança na fonte. Eu perguntava: “E aí, quem é que tá falando isso? Onde você viu? Acha que é verdade?”

Aos poucos, cada grupo foi fazendo mais e mais perguntas às plataformas, guiado por uma sequência de cinco passos para a IA: 1) Definir uma tarefa, 2) Apresentar um contexto, 3) Criar critérios para ação, 4) Dar exemplos e 5) Revisar o conteúdo. A partir daí, passamos a filtrar melhor as buscas: focar notícias recentes evitando perfis de redes sociais, reduzir resultados a publicações dos últimos dois anos, priorizar fontes jornalísticas com dados públicos ou de institutos de pesquisa, checar boatos e informações associadas aos parceiros do projeto e, por fim, produzir uma síntese com os pontos principais sobre cada tema. Lembrando: o fim, neste caso, é o começo.

Com a proposta, abordamos um aspecto fundamental que dialoga diretamente com as mudanças comportamentais em curso para uso de IA em pesquisas. Os estudantes foram percebendo, passo a passo, que a pesquisa que estava sendo realizada trazia mais dúvidas e incertezas do que respostas prontas. E mais do que isso, foram percebendo que a qualidade das afirmações que eles mesmos passavam adiante, foi se qualificando com a confirmação das fontes de informação. Se sentiram mais seguros para conversar sobre o assunto com os demais colegas.

Isso tem tudo a ver com o que estamos vivenciando com as plataformas de busca. Eu por exemplo baixei há alguns meses o “Comet”, navegador da Perplexity, que utiliza assistentes de IA para otimizar minhas buscas com um modelo Pro. Um ponto sem retorno, que não se limita a uso de outras aplicações. Cada uma para seu fim. Mas o fato é que estou adorando este momento de conversar mais com a pesquisa para verificar outras formas de investigação.

E vejam quantas palavras precisei escrever para deixar este texto mais adequado e menos preguiçoso. É disso que estamos falando: de estilo, propósito, autoria e conhecimento técnico. O diferencial no mercado não estará em temer que a IA roube seu emprego de uma hora para outra, mas em desenvolver a capacidade de trabalhar com ela melhor do que os outros, pois a cada momento, alguém pode estar fazendo isso melhor do que você.

Confira os outros destaques da semana e a dica de leitura! 😉

#1 Quando foi a última vez que você colocou 10 palavras no campo de pesquisa do Google?

Diretor de Negócios da Perplexity aponta mudança comportamental como fator decisivo para nova fase da pesquisa digital com modelos de linguagem natural.

Fonte: Podcast Hipster ponto tech, Amazon Music

#2 Nove parceiros europeus se unem para aumento da conscientização sobre o impacto da IA ​​e dos algoritmos na mídia

Ferramenta Tadam Education reúne 10 atividades de educação midiática para apoiar professores e jovens na compreensão crítica da IA com algoritmos na mídia

Fonte: Tadam Education + Toolkit AI and Algorithms

#3 Estudantes da USP vencem desafio internacional de IA com chatbot de combate à desinformação

Desenvolvida para aplicação no Whatsapp, ferramenta “Tá certo isso AÍ?” conquistou primeiro lugar no programa AI4Good, entre 180 projetos de impacto social

Fonte: Tecmundo

#4 O redesenho da Taxonomia de Bloom com os avanços da Era da IA na aprendizagem

Pesquisador Carlos Dinis Pinheiro analisa separação de competências humanas das suplementadas por IA ao integrar ética e cocriação em nova modelagem de avaliação

Fonte: LinkedIn

#5 Indexação de sites que criam imagens íntimas facilita alcance da violência de gênero e abuso infantil, revela estudo da FGV

Jornalista Patrícia Campos Mello revela desafios para combate à disseminação de conteúdos de “nudificação” e “deep fakes” em sistemas de busca. Via Folha de S. Paulo

Fonte: Folha de S. Paulo [versão para assinantes] + FolhaPress [gratuita]

DICA DE LEITURA » 📚

Lembrei de uma entrevista no programa Roda Viva, na época apresentado pela jornalista Vera Magalhães, com Maria Ressa, jornalista filipina, CEO e cofundadora do site de jornalismo investigativo Rappler.

Ressa passou quase duas décadas como principal repórter investigativa da CNN no Sudeste Asiático e foi por conta de suas reportagens críticas ao regime do presidente Rodrigo Duterte e às campanhas de manipulação digital nas Filipinas, que ela foi reconhecida, junto com o jornalista russo Dmitry Muratov, como vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2021.

Hoje ela é referência global em liberdade de imprensa, combate à desinformação e regulação de plataformas digitais. Reler o livro agora nos traz uma reflexão que se atualiza com o tempo, independentemente da tecnologia que utilizamos.

Ensinar jovens a fazer perguntas melhores, conferir links, usar IA com critérios e ocupar, de forma crítica, o novo ecossistema de busca e informação é uma agenda prioritária: o que hoje parece apenas uma disputa por um lugar ao sol no mercado de trabalho, amanhã pode significar a defesa da democracia em um ambiente em que a disputa informacional descrita por Ressa já atravessa, há muito tempo, o cotidiano da educação e da pesquisa.

 

» Como enfrentar um ditador: a luta pelo nosso futuro

Autora: Maria Ressa
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2022

 

 

Obrigado por ler o Radar Pupa!
Se fizer sentido para você, assine gratuitamente para receber as próximas edições e aproveite para compartilhar estas dicas sobre cultura digital e IA na educação.

 

Compartilhar

Deixe um comentário