Adultização e o debate sobre qual sociedade queremos com a geração digital

Vídeo do Youtuber Felca com mais de 32MM de visualizações acelera pauta na Câmara dos Deputados sobre monetização e direitos de crianças e adolescentes em redes sociais.

Foto: Youtube

Olá pessoal! Boa semana e vamos juntos para mais uma jornada!

Por José Brito, jornalista e fundador da Pupa Educação Digital

“Eu fui dando like nos conteúdos que eu achava mais sugestivos, tá? E daí, você vai ver agora o que acontece no meu algoritmo… ou seja, não estou mais pesquisando nada, vou só “scrollar” o meu reels e olha o que acontece. Veja bem. Esse é um movimento que um pedófilo faria. Ele está ensinando o Instagram que ele tem interesse nesse tipo de conteúdo.”

Felipe Bressanim Ferreira, o Felca, youtuber.

Imagem gerada por IA com Gemini

 

Se você é um menino, que como eu, cresceu em meio ao universo minimamente questionável da cultura dos anos 1980, quando piadas machistas, racistas e homofóbicas faziam parte da hora do recreio, e que dancinhas na boquinha da garrafa ditavam o ritmo das festinhas e bailes de carnaval, possivelmente, você irá entender parte importante da discussão que foi desencadeada com o vídeo do Youtuber Felca, que viralizou nesta semana com o alerta sobre o termo “Adultização”.

Se você é de uma ou duas gerações mais novas do que eu, e veio ao mundo depois dos anos 2000, já nasceu sabendo o significado de termos como Shipar, Scrollar, Cringe, Stalkear, Flopar ou FOMO… e, claro, entenderá muito bem a repercussão do assunto em questão na newsletter de hoje e todo o reboliço envolvido quando falamos de monetização, exploração, sexualização e engajamento.

(Quem quiser pula agora para o fim do texto que tem um glossário básico sobre o assunto, mas volta rápido, hein?)

De acordo com a Fundação Abrinq, Adultização é a exposição precoce de crianças a comportamentos, responsabilidades e expectativas que deveriam ser reservadas aos adultos. Até aí, sem grandes novidades, fosse o mundo um ambiente controlado com educação, debates de alto nível e o compromisso com direitos e deveres de pessoas, sobretudo, aquelas mais vulneráveis, como crianças e adolescentes, no ambiente digital.

E esse é o ponto. Dediquei 50 minutos para conferir todo o vídeo. Fiz com atenção. Respirei fundo. Me deparei várias vezes com os alertas de gatilho. Pensei em pular cenas, mas a cada instante em que continuava a assistir percebia a importância do acesso à informação. Não necessariamente o vídeo traz novidades, mas a forma como o assunto foi abordado por Felipe Bressanim joga luz na facilidade como as plataformas digitais entregam conteúdo, muitas vezes criminoso, a perfis que acabaram de ser criados e que são jogados em fóruns de encontros de pedófilos e famílias abusadoras.

Existe um experimento proposto pelo autor, onde é possível mergulhar mais a fundo para entender o impacto do “funil de vendas”, como é chamado o caminho que um cliente percorre desde o primeiro contato com uma marca até a decisão de compra, ou fidelização, no caso das redes sociais e conteúdos virais. Felca apresenta casos de acusação de exploração infantil que já são investigados pelo Ministério Público da Paraíba, como o de um influenciador que faz publicações de uma espécie de Reality Show com adolescentes – foi isso mesmo que você leu: com adolescentes – em cenas constrangedoras com insinuação sexual e abusos. Apresenta casos de famílias que exploram seus filhos e suas filhas em busca do eldorado da monetização de conteúdo. Em todos estes casos relatados, os colegas Luis Fakhouri Felipe Bailez, da plataforma Palver, são excelentes referências para quem quiser seguir algumas das principais tendências e conversas das redes, com dados sobre quem está falando e como está falando sobre os assuntos. Eles participaram do Café da Manhã, podcast da Folha de São Paulo em parceria com o Spotify, que foi meu primeiro ponto de contato para entrar na conversa com um pouco mais de informação. Muito obrigado a Magê FloresGabriela Mayer Gustavo Simon.

Independentemente de propósito ou intenção, o vídeo abre conversas necessárias. Falo aqui com a visão de um pai, de um educador, de um jornalista especialista em cultura digital, e que está envolvido diretamente com alguns dos principais debates contemporâneos sobre estas agendas. Sobre como abordamos o assunto da tecnologia na definição de currículo na escola, sobre segurança online na família, sobre como podemos melhorar a legislação brasileira com políticas digitais, sobre cuidado, construção de autonomia, privacidade, sobre direitos e deveres no bate-papo com qualquer pessoa que se preste a tentar participar da conversa sem a arrogância da dualidade política em pautas de interesse comum. E, claro, sobre conhecimento técnico e letramento algoritmico, pois é disso que se trata o vídeo. Sobre o que podemos fazer para melhorar a jornada de quem está no ambiente digital sem perder de perspectiva a alma do negócio. E é um negócio. Precisamos saber para onde vai o dinheiro e de onde vem o clique, afinal, até que ponto estamos dispostos a agir para tornar a internet mais segura com educação digital, midiática e algorítmica?

Boa leitura!

» Glossário com IA 😉

SHIPAR » Origem: do inglês ship (relationship). » Significado: torcer para que duas pessoas (reais ou fictícias) fiquem juntas. » Exemplo: “Eu shippo muito eles dois!”
SCROLLAR » Origem: do inglês scroll (rolar tela). » Significado: rolar o feed de uma rede social. » Exemplo: “Passei horas scrollando o TikTok.”
CRINGE » Origem: do inglês, significa “vergonha alheia”. » Significado: algo constrangedor ou fora de moda. » Exemplo: “Usar calça skinny é muito cringe.”
STALKEAR » Origem: do inglês stalk (perseguir). » Significado: investigar a vida de alguém nas redes, de forma obsessiva. » Exemplo: “Passei a noite stalkeando meu ex.”
CANCELAR » Origem: da expressão cancel culture. » Significado: boicotar publicamente uma pessoa por atitudes ou falas consideradas ofensivas. » Exemplo: “A influencer foi cancelada.”
FLOPAR » Origem: do inglês flop (fracassar). » Significado: quando algo não alcança sucesso esperado. »Exemplo: “O vídeo flopou, só teve 100 views.”
FOMO » Origem: siglas de Fear of Missing Out. » Significado: medo de perder algo / prazer em não participar. » Exemplo: “Tive fomo do evento”.

 

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DICA DE LEITURA »

“Durante meus primeiros anos de vida, a função das cuecas foi um enigma. … Das trevas fez-se a luz. Então era isso, claro: elas existiam para nos proteger das etiquetas! Se não é pra proteger da etiqueta, pra que serve a cueca?”

Nada melhor do que parafrasear o cronista Antonio Prata após singela reflexão sobre a pureza das infâncias neste ecossistema hostil chamado planeta Terra. Ah, a infância… fase da vida em que estamos com o corpo e a mente em pleno desenvolvimento. Fase em que acreditamos em personagens mágicos, não vemos noticiário e tentamos imaginar o mundo como um local de eternas descobertas. Um local imaculado, recheado de diferenças que nos fazem acordar subitamente com um tapa na cara quando a miséria ou a guerra atravessam o feed nosso de cada dia. Tapa na cara quando enxergamos mais de perto a desigualdade e em que começamos a entender o funcionamento das coisas, o sarcasmo, a ironia e o contexto.

Quebra-se o encanto e vem a nota 4 em Ciências. As bolhas de sabão já não flutuam no ar de quem não ganhou brinquedo no Natal. E a vida ganha outros sentidos quando olhamos para a adolescência batendo na porta, de mau humor, claro, e cheio de confiança para nos jogarmos no circo dos horrores que pode estar bem ao nosso lado. O trecho acima expressa a ingenuidade da infância de Antonio Prata, no livro “Nu, de Botas”, relançado pela Companhia das Letras e que comprei recentemente numa passagem pela Livraria da Travessa com minha família. Bom para questionar funções cotidianas com humor e lógica própria de um cronista que faz cada vez mais sentido em nossos embates sobre o futuro da humanidade.

» Nu, de botas

Autor: Antonio Prata
Editora: Companhia das Letras
2013

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