A busca por sentido diante do imprevisível

Congresso no Rio debate educação na era da distração digital enquanto a sociedade procura empatia em meio a cenas de violência, com ou sem tecnologia.

 

Por José Brito, jornalista, fundador da Pupa Educação Digital e professor do Laboratório de IA e Educação Digital do Colégio MOPI.

“A maior inclusão é a do desejo, do sentido, do propósito. A vida não pulsa na inteligência artificial.”

Carla Tieppo — neurocientista, doutora em Ciências e palestrante do Congresso SinepeRio 2026, em fala no 35º Congresso da Rede Sinodal de Educação, em julho de 2026.”
Imagem gerada com IA no Nano Banana. Ilustração em pixel art sobre fundo verde menta. No centro, um robô sorridente segura um grande coração dourado atravessado por uma linha de batimento cardíaco, cercado por telas de celular e computado. Abaixo, um livro aberto forma um portal de luz por onde um pequeno robô com mochila.

 

Escrevo esta edição do Radar Pupa em meio a dois acontecimentos que marcaram minha manhã de sexta-feira, quando me preparo para participar do Congresso Sinepe Rio, evento organizado pelo conjunto carioca dos estabelecimentos de ensino da educação básica e onde farei uma palestra no sábado com o Colégio Mopi.

O primeiro foi um acidente de moto que presenciei há pouco quando levava minha filha Antônia para escola. O segundo foi pouco tempo depois, quando ouvi na rádio Bandnews a notícia da morte de um morador do bairro de Copacabana, vítima de espancamento ao ser confundido com um ladrão de bicicletas.

Ambas mexeram bastante comigo. Com o trânsito parado, percebemos a vida passar na nossa frente. O motociclista se desequilibrou e caiu. Estava em uma via de alta velocidade. Permaneceu deitado no chão e logo outros colegas pararam o trânsito para ajudar. A comoção coletiva em apoio a uma tragédia iminente, na luta pela vida, contrasta com a barbárie do caso de Copacabana, quando o socorro não chegou a tempo e Claudio Rafael Landeiro, de 37 anos, foi espancado até a morte por um vigia de rua e dois entregadores. A manchete dizia: “57 pancadas em seis minutos”.

A frase da semana destaca esta busca pelo sentido da vida. Ela nos lembra que apesar da conexão direta com a alta tecnologia e todo esse novo contexto com inteligência artificial, muitas vezes, a maior inclusão que precisamos ter é a do desejo e do sentido. A neurocientista Carla Tieppo deixa no ar uma provocação que acredito ser fundamental fazer todos os dias ao olhar no espelho antes de sair de casa. Onde estamos? Onde queremos chegar enquanto sociedade? O que estamos fazendo? Com tudo o que está acontecendo no Brasil e no mundo, com conflitos internacionais, conflitos dentro de casa, violência no trânsito, nas escolas, nas cenas mais pueris da vida mundana, precisamos parar e pensar qual é o propósito disso tudo.

Se estamos distraídos, desconectados com os acontecimentos ao nossos redor, desatentos às consequências dos atos que podem mudar o rumo das pessoas e o nosso próprio futuro, perdemos a capacidade de sentir o outro. E esse é o começo do fim. Quando falta empatia, falta emoção, falta poder de uma decisão melhor e mais estruturada em nossa cartilha cidadã.

O tema do congresso este ano é educação na era da distração digital. Na programação estão nomes como a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, educadores Mozart Neves Ramos e Maria Helena Castro, o jornalista Alexandre Sayad, o judoca Flavio Canto, a juíza Vanessa Cavalieri a filósofa Lúcia Helena Galvão, Vinícius Canedo e outros. Falar de neurociência, saúde mental e tecnologia é falar da educação para a vida.

Enquanto a escola debate a atenção dos estudantes, tem outras disputas competindo para nos convencer sobre decisões a tomar. O ITS Rio, Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, criou o projeto Boca de IA, um estudo sobre como as plataformas de IA respondem a dúvidas eleitorais.

Nesta semana a OpenAI lançou uma versão do ChatGPT voltada para adolescentes. A novidade é um modo de estudo que responde por perguntas em vez de entregar a respostas prontas, restrições de conteúdo sensível, recusa de interações românticas e controles parentais para vincular contas.

Tem curso novo na plataforma Avamec: “Segurança e Cidadania Digital em Sala de Aula”. E em São Paulo fórum da BBC “Trust is Earned”, debateu confiança e integridade da informação em tempos de mídias sintéticas e ameaças ao jornalismo.

Boa leitura! 🙂

📌 Fontes: Congresso SinepeRio 2026 | Carla Tieppo — 35º Congresso da Rede Sinodal | Boca de IA — ITS Rio | MEC / Avamec | BBC — Trust is Earned

#1 — Congresso SinepeRio 2026 debate a educação na era da distração digital

Encontro acontece hoje e amanhã na Barra da Tijuca com mais de 40 palestrantes em painéis sobre neurociência, saúde mental, tecnologia, inovação e inclusão.

🔗Fonte: Congresso SinepeRio | Diário do Rio

#2 — No lugar da boca de urna estudo revela interação das plataformas de IA quando assunto é eleições.

Projeto do ITS Rio monitora como ChatGPT, Gemini, Meta AI, Grok, DeepSeek, Perplexity e Claude respondem a perguntas eleitorais.

🔗Fonte: Boca de IA | ITS Rio

#3 — MEC oferece novo curso gratuito de segurança digital para educadores

Segurança e cidadania digital em sala de aula conta com cinco módulos, 40h e certificação. Produção da SaferNet Brasil com apoio do Governo do Reino Unido.

🔗Fonte: MEC | SaferNet

#4 — OpenAI lança ChatGPT para adolescentes com limites automáticos e controle parental

Versão entra em uso quando a plataforma identifica usuários de 13 a 17 anos, com modo de estudo, restrição a conteúdo sensível e recusa de interação romântica.

🔗Fonte: Instagram / Reels | Notícias ao Minuto

#5 — BBC reúne em São Paulo debate sobre credibilidade e desinformação

O fórum “Trust is Earned” foi realizado no Centro Brasileiro Britânico, com a ministra Cármen Lúcia e oficinas sobre os métodos de verificação usados pelo jornalismo.

🔗Fonte: BBC | Correio Braziliense

DICA DE LEITURA 📚

Livro: O IMPÉRIO DA IA

Autora: Karen Hao
Editora: Rocco
Ano: 2026

 

Falar de atenção e confiança é também falar do que faz parte das chamadas conversas difíceis hoje em dia. Karen Hao é engenheira formada no MIT e jornalista, acompanhou a OpenAI de perto para reconstruir a virada da organização que nasceu sem fins lucrativos para uma empresa movida a bilhões da Microsoft.

Importante perceber essa trajetória para entender o que, de fato, sustenta os modelos que usamos todos os dias. Falamos de poder computacional, processamento massivo de dados e, claro, a economia da atenção, que faz esta roda girar cada vez mais rápido. Quando a gente discute distração na sala de aula ou recomendação de voto no chatbot, está discutindo a ponta visível de uma infraestrutura que foi decidida em outro lugar. Vale ler para não confundir as ferramentas com as decisões que precisamos tomar com sensibilidade a todo o momento.

Capa do livro O Império da IA, de Karen Hao. Fundo de listras horizontais em degradê roxo e verde, com o título em letras grandes dentro de um círculo branco com traços de circuito impresso, e o logotipo da editora Rocco no rodapé.

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