Iniciativa do Colégio MOPI integra ações para composição de grade curricular com educação digital e explora agendas sobre cidadania e futuro do trabalho
Por José Brito, jornalista, fundador da Pupa Educação Digital e professor do Laboratório de IA e Educação Digital do Colégio MOPI, no Rio de Janeiro.
“Aprender é, antes de tudo, um ato de humanidade. Não queremos apenas usar IA: queremos que toda a comunidade compreenda como ela funciona, o que ela pode e o que jamais poderá substituir: a curiosidade, o pensamento próprio e a capacidade de criar sentido na vida.”
André Ferreira, Coordenador dos Ensinos Fundamental II e Médio do Colégio MOPI

Imagem gerada com IA em pixel art. Várias mãos de robôs seguram juntas um livro-carta iluminado, marcado “IA”, com os quatro pilares da política de IA da escola: proteger, orientar, formar e qualificar (escudo, bússola, capelo e engrenagem). Abaixo, um robozinho lê um livro com um coração e um broto, a dica de leitura da semana. Nos cantos, em tom menor, os outros temas da edição.
Um aluno que cola o enunciado no ChatGPT. Uma família cheia de dúvidas sobre o que está acontecendo no grupo de Zap da escola. A professora que sonha em preparar aulas maravilhosas com IA, mas não sabe por onde começar. Cenas como estas fazem parte da rotina de muita gente e cada vez mais conduzem a sociedade para um campo exploratório com inteligência artificial, assistentes digitais, seus riscos, oportunidades e consequências
Faço parte deste rolê. Sou pai, jornalista e professor. Desde o início deste ano estou vivendo presencialmente em sala de aula as desventuras da vida com a tecnologia com estudantes do Ensino Fundamental II e Médio. Não são problemas novos: são a versão mais recente das tensões que o Marco Civil da Internet já tentou endereçar há alguns anos, que a LGPD regulamentou recentemente e que, agora, o ECA Digital e os novos referenciais do MEC para uso de IA na educação colocaram diante de nós. Tudo junto e misturado com o carro andando. Coisa simples.
Na aula desta semana dividi com os alunos o exemplo do professor de uma universidade norte-americana que inseriu um código secreto no enunciado de um trabalho para testar a capacidade de autoria dos alunos. Resultado: mais de 90% da turma reprovada com texto copiado e colado. Link da reportagem aqui.
Pensando neste e em outros exemplos, convocamos toda a comunidade para construir, junto, uma Política para uso de Inteligência Artificial no Colégio MOPI. Tive a oportunidade de coordenar um grupo de trabalho multidisciplinar. Abrimos um formulário no Google Forms para educadores, estudantes e responsáveis das unidades Itanhangá e Tijuca. Uma mãe do GT contou: “Meu filho concluiu a tarefa de educação física pesquisando no Gemini, não no Google. A política precisa chegar às famílias.” Ali estava claro que o desafio seria muito maior, pois estamos em meio também a uma mudança de cultura.
A partir dessa escuta, fomos às turmas: rodamos encontros sobre ECA Digital e IA com todas as classes do Fundamental II e do Ensino Médio, do sexto ano ao terceirão. Quase 400 alunos. Falamos de memes, trends, Roblox, novelinhas de frutas, aura, CazéTV e, claro, umas perguntinhas que costumo fazer sempre aos alunos: Como você se informa? Onde viu isso? Quem te encaminhou? Será que é IA? Já pensou no contexto dessa informação?
Em paralelo, levamos a conversa às famílias num evento chamado: Escola de Pais. Atividade on-line dedicada ao ECA Digital e uso de inteligência artificial, porque educação digital deixou de ser assunto só para proteger nossos avós de golpes na internet, né? Meus pais me avisam regularmente das tentativas que recebem pelo zap. Trata-se agora de uma agenda maior e contínua sobre direitos e deveres. Sobre competências para o futuro do trabalho. Futuro que está sendo desenhado neste exato momento com a revisão do currículo digital nas escolas e preparação dos novos estagiários, empreendedoras e aprendizes das empresas.
O documento que nasceu desse percurso se organiza em torno de quatro compromissos: 1) proteger crianças e adolescentes em ambientes digitais complexos; 2) orientar educadores na integração pedagógica sobre e com IA; 3) formar estudantes autônomos e éticos; e 4) qualificar o uso das ferramentas com IA. Dialoga com os três eixos da BNCC Computação (mundo digital, cultura digital e pensamento computacional) e se apoia também em princípios orientadores da escola, com a ideia do aprendizado para a vida toda, lifelong learning.
Falamos bastante sobre a importância de leitura de contextos. Trend não é o que viraliza. Uma guerra no Oriente Médio pode mexer no preço da alface na feira. Uma deepfake em ano de eleição pode ser feita com avatares de pessoas que nem existem. A publicidade de apostas online explode durante uma Copa do Mundo no Youtube, e influenciadores vendem saúde e canetas para tratamento da obesidade entre um story e outro. Ler esse ecossistema digital fluído, saber de onde vem a informação e a quem ela serve, é competência básica do nosso tempo. E com a IA o processo é ainda mais complexo. Não por acaso, a OCDE, responsável pelo PISA, o Programa Internacional de Avaliação de Alunos, já anunciou que a partir de 2029 haverá novos parâmetros para avaliar as competências digitais dos estudantes. Dados da TIC Kids Online 2025, do Cetic.br, mostram a urgência: 75% dos jovens brasileiros de 15 a 17 anos usaram IA generativa no último ano, 68% deles para pesquisa escolar.
Esse debate também é sobre juventudes e emprego. Assisti recentemente um TEDx com a pesquisadora Amy Bruckman, do Georgia Tech, e ela fez um paralelo interessante: se a IA já faz boa parte do trabalho de quem está começando a carreira, como vamos formar os profissionais em meio de carreira que já estavam aqui? É o que tento fazer com meus alunos, em casa, com minha filha, com meus pais: mostrar que o resumo pode ser um bom ponto de partida para uma pesquisa, mas nunca o ponto de chegada.
O mais importante é que esse processo não terminou com a publicação do documento. Ele segue vivo. Uma política de IA é algo específico de cada instituição. Uma jornada de escuta que pode ser compartilhada e adaptada. É o que seguimos fazendo na Pupa Educação Digital ao lado de escolas, empresas e famílias: palestras e formações para lideranças, oficinas mão na massa e agendas sobre competências digitais, ética e futuro do trabalho. Porque preparar as próximas gerações, e também oferecer oportunidades de requalificação para equipes que já estão no mercado, é uma responsabilidade coletiva.
Boa leitura!
📌 Fontes: Política de IA do Colégio MOPI | Cetic.br — TIC Kids Online 2025 | TEDx Amy Bruckman

#1 — Encontre a Pupa na Rio Innovation Week
A Pupa estará na maior feira de inovação da América Latina apresentando seu modelo startup com três frentes: PUPA EDU (educação digital para jovens e adultos), PUPA MAX (aceleração de empresas com IA para negócios) e PUPA LAB (exposições e mostras imersivas sobre cultura digital). José Brito também sobe ao palco pelo Colégio MOPI para falar da construção coletiva de política de IA na escola.
🔗Fonte: Rio Innovation Week | Pupa Educação Digital | Colégio MOPI

#2 — Autora do livro “O Império da IA” participa do Congresso da Abraji, em SP
Karen Hao, autora do best-seller que investiga a trajetória da OpenAI e os impactos globais da corrida pela IA, participa da programação do 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, de 30 de julho a 1º de agosto, em São Paulo.
🔗Fonte: Congresso Abraji — Esquenta com Karen Hao

#3 — China começa a resfriar data centers de IA no fundo do oceano
Iniciativa reforça corrida global por liderança em inteligência artificial e visa aumentar eficiência chinesa para diminuir custos da demanda energética e térmica da tecnologia.
🔗Fonte: Revista Carta Capital

#4 — Aumento da produção de deepfakes sexuais por adolescentes preocupa famílias
Problema combina tecnologia acessível, falta de mediação e riscos reais de violência e humilhação. Confira o relatório da Common Sense Education.
🔗Fonte: Common Sense Education

#5 — Série da UNESCO orienta para a educação digital com IA
Foco dos vídeos está na interseção entre letramento digital, ética e formação de professores. Material acessível traduz políticas públicas em práticas de sala de aula.
🔗Fonte: Série UNESCO no YouTube

DICA DE LEITURA 📚
Livro: O ALGORITMO DAS FAMÍLIAS
Autora: Renata Cafardo
Editora: Contexto
Ano: 2026

Capa de O algoritmo das famílias, de Renata Cafardo (Editora Contexto): fundo azul-escuro tomado por dígitos binários, com o título em letras brancas em destaque e o subtítulo “como o mundo digital desafia a parentalidade”.
Já pedi meu autógrafo. Estarei com Renata Cafardo nos próximos congressos da ABRAJI e da JEDUCA em SP. Em O algoritmo das famílias ela nos mostra como a parentalidade hoje é atravessada por algoritmos, telas e decisões que nenhuma geração anterior precisou tomar. Me lembrei da música de Elis Regina, “Como nossos pais”. Mesmo tentando fazer diferente, muitas vezes seguimos presos a velhos padrões, agora atravessados por outros desafios culturais que também nos educam. A obra cai como uma luva para o momento em que vivemos. Sem respostas simples para ecossistemas complexos. Novas relações com filhos na fronteira entre a escola, a família e a tecnologia.

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