Estratégia e aprendizagem para um mundo em transformação digital

Por José Brito, jornalista e fundador da Pupa Educação Digital

Sejam todas as pessoas muito bem-vindas à primeira edição do Radar Pupa — uma curadoria semanal sobre os impactos da transformação digital na educação, no jornalismo, nos novos negócios nativos em IA e, claro, na rotina de famílias conectadas que, assim como eu, estão tentando atravessar a tempestade de informação com doses cirúrgicas de diálogo sobre mídia, tecnologia, relações saudáveis e aprendizado para o que, de fato, importa nesta vida.

Não sei se concordam, mas acredito que estamos vivendo sob o efeito de um novo zeitgeist, cada vez mais atravessado por um modelo IA-based — e, ao mesmo tempo, desafiado por um ambiente hostil nas relações geopolíticas, institucionais, familiares e até com os próprios algoritmos. É o que temos pra hoje! Um cenário que testa quem educa, quem empreende e quem tenta acompanhar as rotinas de uma geração ansiosa, sem qualquer memória que não seja digital, fluente em linguagens efêmeras e em busca de seu lugar ao Sol — seja de olho nas startups do futuro do mercado de trabalho, seja no chat “saudável” mais próximo de você. Não por menos, uma geração que aprendeu primeiro a falar “Alexa, para!” antes mesmo de dizer “Obrigado” a quem está bem ao seu lado na mesa do café.

Criei esta newsletter para acompanhar o que está mudando nesse mundo digital e dividir com vocês algumas das minhas impressões em grupos de pesquisa, eventos, almoços, rodas de conversa, “A conta, por favor?” — e como isso tem nos afetado na relação com a escola, com nossas redes profissionais e dentro de casa, talvez este último o melhor microcosmo, disfarçado de laboratório de tendências das minhas pesquisas recentes.

Vamos nessa! Aqui, você encontrará tendências, dados, dicas de leitura, provocações e alguns relatos mais pessoais — com o objetivo de ampliar o acesso à informação técnica e processual nesse rolê que já está em curso.

Em foco: IA nas escolas — entre a promessa e o improviso, alguns caminhos possíveis.

A inteligência artificial generativa já chegou às salas de aula — via ChatGPTGeminiClaudeKhanmigoCopilot ou qualquer outra novidade do hype. Percebo neste momento uma corrida pela bala de prata. Em meio ao entusiasmo, demanda por conexão digital, muitas escolas seguem sem critérios claros para o uso dessas ferramentas, e o debate entre inovação e responsabilidade ainda carente de maturidade e propósito.

Segundo um levantamento recente da UNESCO, menos de 15% dos países têm diretrizes específicas sobre IA na educação básica. No Brasil, embora existam estratégias nacionais de transformação digital e de IA — destaco aqui a Estratégia Brasileira de Educação Midiática e o Marco Civil da Internet, os avanços em termos de orientação prática para escolas, redes de ensino e formação docente, ainda precisam ser melhor explorados.

É preciso explorar as ferramentas. Debater contextos. Testar hipóteses. Avaliar processos criativos. Sair da zona de conforto, da aversão ao novo e buscar intencionalidade pedagógica com colaboração entre gerações. A IA deve ser um recurso para despertar criatividade, o pensamento crítico e a ética digital — mas, como venho defendendo em outros artigos, com mediação, para evitar desigualdades, vícios algorítmicos e decisões baseadas em dados enviesados.

Leitura recomendada:
UNESCO – Guia para uso da IA generativa na educação


Para empresas: IA não é só ferramenta — é cultura

Costumo dizer que a mudança de cultura é mais difícil que a mudança tecnológica. Já parou para perguntar para alguém do seu círculo de relacionamentos quando essa pessoa fez algo novo pela primeira vez? Aprendeu a dançar, viajou com outro grupo de amigos, mudou uma rotina? Pois é, o uso da IA nos ambientes corporativos vem crescendo, mas muitas empresas adotam soluções ainda sem um plano de formação para suas equipes, o que compromete não só a produtividade, mas também a segurança e a reputação institucional. Tenho explorado bastante este campo nas agendas com os clientes da Pupa. Nesse sentido, divido aqui alguns aprendizados:

Três pontos de atenção:

  • Seus colaboradores sabem o que podem (e o que não devem) fazer com IA?
  • Existem diretrizes internas para o uso ético de ferramentas generativas?
  • A cultura digital da empresa valoriza pensamento crítico e leitura da informação?

Transformação digital exige governança, comunicação e, acima de tudo, um plano de aprendizagem contínua. As máquinas evoluem rápido. As pessoas também, mas para isso é necessário uma visão estratégica para a definição de uma jornada de aprendizagem.


Para famílias: e se a IA já estiver educando sem a gente perceber?

Outro dia baixei o Duolingo. Pois é. E olha que isso foi depois da minha filha desativar as notificações da plataforma, pois não estava mais aguentando a cobrança por medalhes ou mau humor do bichinho. Tomei esta iniciativa depois de conversar com colegas na última edição do WebSummit Rio e perceber que esta tem sido uma das grandes evoluções da IA no mundo digital: o ensino de idiomas. Outro dia observamos o lançamento da ferramenta de tradução simultânea em reuniões. Fantástica! Para quem aprendeu inglês e espanhol fora da escola nos anos 1980, bom saber que a fronteira da língua nunca esteve tão próxima. Vou explorar alguns idiomas e volto aqui depois de um ano e conto pra vocês.

De resto, a presença da IA está mais que naturalizada do que parece. A grande questão é que ainda faltam camadas de conhecimento de que ela está muito perto e precisa da gente. De apps de leitura com voz a algoritmos de recomendação em redes sociais, identificação de imagens, quiz, desafios, recompensas, crianças e adolescentes interagem diariamente com decisões automatizadas — muitas vezes sem saber.

Três sinais de que seu filho já está vivendo sob influência algorítmica:

  • Reações imediatas a recompensas rápidas (efeito TikTok e Whatsapp).
  • Dificuldade de concentração e alternância constante entre telas.
  • Confusão entre conteúdo patrocinado e informativo.

Falar sobre IA com crianças e jovens exige escuta e presença — posso falar de carteirinha. Toda vez que tento regular o tempo da plataforma, percebo o garçom trazendo aquela “Torta de climão”, azedando o humor de toda a família. Venho testando algumas perguntas simples em casa que podem abrir novas conversas:
“Quem você acha que escolheu esse vídeo?”
“Você confiaria em um robô para corrigir sua prova? O que falta pra ele entender piadas ou preconceito?”


Dica de leitura

📘 The Age of AI – Henry Kissinger, Eric Schmidt e Daniel Huttenlocher
Uma leitura rápida e esclarecedora para quebrar o gelo. Abre discussões sobre alguns cenários da IA na geopolítica, na educação e na sociedade. Ideal para quem quer sair da primeira página e virar o tabuleiro com um pouco mais de perspectiva.


Até a próxima!

Radar Pupa nasceu com o meu desejo de criar um espaço atualizado de trocas de ideias e casos sobre cultura digital e inteligência artificial aplicada à educação e negócios de impacto. Irei degustar da escrita afiada de um jornalista apaixonado com uma pitada de um jovem empreendedor para trazer em cada edição um pouco das novidades que tenho observado nas redes que constituí ao longo da carreira e, sobretudo, da intuição de um pai da geração Alpha sobre o que tem dado mais certo ou errado na rotina.

Se fizer sentido para você, compartilhe esta edição. Sugestões de temas, links e ideias também são sempre bem-vindas. Nos vemos na próxima semana.