Estudantes querem resumos com IA. Educadores otimização de tempo e customização do ensino

Estudo do Cetic.br revela diferentes desejos para uso de inteligência artificial na aprendizagem e aponta novos desafios para jovens no mercado de trabalho.

 

Oi, oi gente, boa semana!

Por José Brito, jornalista e fundador da Pupa Educação Digital

“A gente tem um cenário de jovens que estão nesse momento anterior ao ingresso no mercado de trabalho, bastante receosos com o que vem pela frente. Então acho que tem um processo aí de formação, de dar o conhecimento necessário, de transmitir de maneira mais ampla, o que significam essas ferramentas, que é super importante para justamente não gerar um futuro pessimista por parte dos jovens e um pouco essa sensação de paralisia.”

Graziela Castelo, Coordenadora do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC.br)

Imagem gerada por IA com Gemini

 

Nesta semana estive no chão de fábrica. Vivi por alguns momentos aquela sensação gostosa de fazer parte de uma engrenagem vibrante, cheia de rotinas, metodologias de trabalho, processos milimétricos e departamentos com equipes bem treinadas responsáveis por uma linha de produção complexa às vésperas do final do ano.

Fui à escola. Desde que me tornei pai, há doze anos, faço questão de vivenciar esta experiência diariamente, seja para levar minha filha ao colégio, seja para conversar com os professores, entender mais de perto as estratégias e tecnologias que estão sendo adotadas nos ciclos de aprendizagem ou apenas para tomar um cafezinho e jogar conversa fora com a querida turma da portaria.

O fato é que desta vez foi diferente. Dediquei algumas horas para interação direta com crianças e adolescentes do sexto ao nono ano do Ensino Fundamental. Fui ministrar uma aula sobre cultura digital e inteligência artificial no Colégio MOPI, que conta com duas unidades no Rio de Janeiro. Uma no bairro do Itanhangá, outra na Tijuca.

Posso dizer com todas as letras. Foi uma experiência fantástica! Momentos como este me enchem de alegria pois trazem à memória o compromisso que tenho com tudo aquilo que acredito na vida e que, na sala de aula, se materializa claramente como uma pílula do legado que podemos deixar para a humanidade; uma pequena dose de conhecimento divido, com uma pitada de diálogo, de escuta e de troca entre as gerações que convivem com os dilemas nossos de cada dia com o uso de tecnologias, do acesso à informação e das escolhas que precisamos fazer.

No momento em que o Brasil vive uma fase de pleno emprego, afinal, segundo dados do IBGE, a taxa de desempregados no país caiu para 5.4% em outubro de 2025, registrando o menor patamar da série histórica desde 2012, tentar entender o que passa na cabeça dos jovens que estão diante das novas oportunidades de empreendedorismo e batendo à porta novo mundo do trabalho é, no mínimo, uma questão de sobrevivência. E por que não avançar uma casinha e abrir esta caixa de pandora já na fase de transição da infância para a adolescência?

A pesquisa do Cetic.br abre um campo exploratório justamente sobre este assunto. Como educadores e estudantes estão experimentando tecnologias com uso de inteligência artificial nos últimos meses, afinal, já se vão quase três anos desde o surgimento do ChatGPT e parece que foi no século passado. Tudo muito rápido e com um monitoramento de práticas que se faz necessário no avançar da relação do ser humano com as máquinas.

Em postagem disponível no Linkedin, sobre o trabalho da pesquisa, a coordenadora Gabriela Castello destaca os anseios dos estudantes, que estão utilizando mais a IA para fazer resumos, pesquisas em trabalhos acadêmicos e organização de rotinas. Por outro lado, educadores preferem resultados com a otimização de tempo nas tarefas dentro e fora da sala de aula, com a ampliação do repertório pedagógico para preparo das atividades e, claro, para buscar algo mais próximo da personalização do ensino.

Na escola, percebi esta dinâmica bem de perto. Estive com turmas de 12 a 15 anos de idade por cerca de duas horas no contraturno. Utilizei duas estratégias distintas, mas complementares. Com os mais velhos debatemos a gestão da informação e da engenharia de prompt, com os comandos realizados para chats e assistentes virtuais. E experimentamos o uso de tecnologias com ferramentas de IA e reconhecimento de imagens com os mais novos. Um processo riquíssimo, percebido de forma cristalina com a sagacidade daqueles que já estão um passo adiante no acesso ao conhecimento, e com o sorriso no rosto dos que ainda se mostram curiosos quando descobrem algo com um toque de encantamento pela primeira vez.

Debatemos sobre tudo. Das dúvidas e incertezas que persistem sobre limites, critérios de uso, riscos éticos, sobre a checagem de informações, sobre quem está por traz da tecnologia, onde ela está, como ela é feita, pra quem é feita… tudo com a mente aberta e o coração pleno ao fazer da experiência uma nova pesquisa sobre autonomia, curadoria, privacidade e uso de telas com quem está do outro lado da moeda.

Fica o aprendizado e a certeza de que 2026 será um ano diferente nas escolas. Todo mundo irá, de uma forma ou de outra, apresentar resultados mais concretos sobre a integração da IA em rotinas, com um olhar sempre conectado com as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular, e cada vez mais perto da realidade desta geração que está vindo por aí redesenhando profissões com entendimento mais próximo, espero, do universo digital, da cultura digital e do pensamento computacional.

Outro dia perguntei para minha querida esposa, Sabrina, como será o perfil da nossa filha como estagiária daqui a alguns anos. Calma! Ela falou. Falta muito ainda, José Eduardo. Pode ser, mas posso dizer agora que estou tentando, dia após dia, ficar um pouquinho mais perto desta resposta com algumas novas perguntas.

Boa leitura!

#1 Estudantes querem resumos com IA. Educadores otimização de tempo e customização do ensino

Fonte: Cetic Br
#2 Roblox institui verificação de idade para acesso ao chat com reconhecimento facial e agrupamento por faixas etárias
Fonte: Poder Tech

#3 Gigante chinesa do comércio eletrônico, Alibaba, lança óculos com IA generativa e tradução simultânea

Fonte: Olha Digital

#4 Novo podcast do Instituto de Estudos Avançados da USP irá monitorar avanços da Inteligência Artificial no Brasil

Fonte: IEA USP

#5 Educação digital e midiática é tema de entrevista em blog da Editora Moderna

Fonte: Blog Soluções Moderna

DICA DE LEITURA » 📚

Durante a espera para dar aulas na escola passei um tempo na biblioteca. Estava sozinho. Deixei o telefone de lado, carregando, e fui para as prateleiras. Permaneci uns minutos a mais de frente para a sessão de literatura estrangeira. A cor laranja de uma das obras me chamou atenção. Gostei do desenho de capa. Os traços no estilo caricato destacava os perfis dos personagens. E pronto. Estava eu já de mãos dadas à obra do famoso dramaturgo inglês de Stratford-upon-Avon.

A Megera Domada, de William Shakespeare, é uma das comédias mais controversas do escritor, justamente, por tocar em temas sensíveis, como controle e dominação. Nada mais oportuno para conversar com estudantes do que o papel os algoritmos e o viés da tecnologia, afinal, uma leitura contemporânea da peça pode ir além da denúncia do patriarcado e servir como introdução para debates sobre ética e responsabilidade na IA.

Se por um lado, Catarina, protagonista da peça, é forçada a obedecer seu marido, por outro, atualmente corremos o risco de ver os algoritmos decidirem quem deve ser ouvido, quem é considerado confiável ao usar uma ferramenta com IA, e quais narrativas ganham destaque no ambiente digital, reproduzindo, em escala global, desigualdades que antes se manifestavam apenas do lado de cá das telas.

Fica a dica, então, que a tecnologia não é neutra: ela carrega intenções, escolhas e ausências. E da mesma forma que revisitamos Shakespeare para reinterpretar e questionar as hierarquias do passado, podemos revisitar nossos sistemas digitais para monitorar sempre as escolhas que fazemos no presente e no futuro.

Até a próxima!

» A megera domada

Autor: William Shakespeare, com tradução e adaptação de Walcyr Carrasco
Editora: Editora Moderna
Ano: 2014

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