O avanço de tecnologias com IA expõe riscos e abre oportunidades para uma geração de crianças e adolescentes que podem romper padrões, mas precisam de acesso à informação, história e educação crítica.
Por José Brito, jornalista e Fundador da Pupa Educação Digital. Este é um artigo escrito originalmente a convite de Sabrina Petry, Isabela Esteves e a Lamparina Sustentabilidade e Comunicação, que divido aqui na íntegra nesta edição do Radar Pupa.
“Ensinamos as meninas a serem agradáveis, boazinhas, fingidas. E não ensinamos a mesma coisa aos meninos. É perigoso. Muitos predadores sexuais se aproveitam disso… Ensine sua filha a ser honesta. E bondosa. E corajosa. Incentive-a a expor suas opiniões. Elogie principalmente quando ela tomar uma decisão difícil ou impopular, mas que é a sua posição sincera.”
Trecho retirado do livro “Para educar crianças feministas”, de Chimamanda Ngozi Adiche
Cresci nos anos 1980 e 1990 em um cenário em que o entretenimento de massa ajudava a normalizar o machismo, o racismo e a homofobia na forma de piada. Programas de TV, campanhas publicitárias, letras de música e por aí vai… tudo repetido à exaustão para banalizar o corpo das mulheres como objeto, afirmar que pessoas negras eram alvo de estereótipos e que a comunidade LGBTQIAP+ existia para ser ridicularizada.
Esse ambiente cultural, impulsionado diretamente pelo desenvolvimento tecnológico e uso de mídias digitais, formou gerações de meninos que aprenderam, muitas vezes sem perceber, a rir da dor dos outros e a tratar corpos, identidades e diferenças como motivo de deboche. Hoje, como pai de uma menina de 12 anos e educador, essa memória funciona como alerta e reforça o papel da informação e da educação na construção de consciência histórica e social.
Quando olho para o caso recente do Grok, a inteligência artificial do X, usada para gerar imagens como as que despiram digitalmente mulheres e meninas em fotos, enxergo uma cultura que não nasceu com a IA, mas que há décadas coloca o corpo das mulheres como objeto público, disponível para avaliação, julgamento e exposição. A tecnologia, sim, deu escala e velocidade a algo estrutural, que Simone de Beauvoir já apontava ao dizer que não se nasce mulher, torna se mulher, num processo social que também pode transformar meninos em homens.
Ser pai de uma menina em 2026 é viver esse paradoxo diariamente. De um lado, há o orgulho de vê-la navegando com autonomia em ambientes digitais, curiosa, confiante, aprendendo, criando e se conectando, claro, no seu tempo, com ferramentas de controle, regras e muito diálogo. De outro, existe a preocupação com um mundo em que uma foto comum pode ser transformada em imagem sexualizada sem consentimento e circular em segundos, como se viu no caso Grok. Poder colocar isso em um contexto é, pra mim, ter consciência histórica de que brincadeiras que normalizam a violência podem terminar em tragédias.
Falar em educação para o digital é, necessariamente, falar de gênero, raça, sexualidade e poder. Djamila Ribeiro nos lembra, ao discutir o lugar de fala, que não existe neutralidade quando olhamos para quem sempre foi silenciado ou objetificado, e que assumir nossa posição é parte da responsabilidade ética. A missão de educar para a igualdade de gênero e para a afirmação das diversidades é tarefa diária, que começa em perguntas simples, como que tipo de homem as meninas veem em seus pais, professores e referências masculinas, e quais modelos de masculinidade estamos ajudando a construir ou desconstruir quando decidimos não rir de uma piada machista, não deixar passar um comentário racista e não normalizar a homofobia. É preciso ir além de simplesmente constranger o agressor.
Dois verbos ajudam muito nesse caminho, reconhecer e reparar. Reconhecer que fomos criados em um contexto que nos ensinou coisas que hoje sabemos ser injustas e violentas. Reconhecer que já erramos enquanto sociedade e que já reproduzimos discursos e atitudes que ferem outras pessoas, especialmente mulheres negras, cujos corpos e vozes historicamente carregam marcas profundas de violência e resistência, como lembra Conceição Evaristo ao tratar das memórias inscritas nos corpos femininos. E, a partir daí, reparar, mudar práticas, pedir desculpas quando necessário, apoiar políticas e ações que promovam igualdade e reavaliar o que consumimos e compartilhamos, especialmente no ambiente digital.
Na Pupa Educação Digital, esse compromisso com reconhecimento e reparação se traduz em projetos que unem educação midiática, tecnologia e formação crítica. Ao discutir casos como o do Grok, algumas perguntas podemos fazer. Como chegamos até aqui? Que sociedade queremos? Que caminhos educativos podemos construir para que meninos e meninas lidem com tecnologia com responsabilidade, empatia e respeito? A ferramenta é nova, a responsabilidade ética é antiga, e passa por rever privilégios, escutar os lugares de fala historicamente silenciados e ensinar que liberdade digital não pode ser sinônimo de licença para humilhar.
Trabalhar com educação midiática e informacional significa também ensinar leitura de contexto, interpretação de texto e consciência de classe. Significa mostrar que imagens não são neutras e que as narrativas que consumimos, da propaganda ao meme, carregam visões de mundo que podem reforçar desigualdades ou questioná-las. Aprendi ao longo da vida que não são as respostas que movem o mundo. São as perguntas.
Se o preço da liberdade é a eterna vigilância, essa vigilância precisa começar em cada um de nós. Ela passa pela forma como lembramos das nossas infâncias, revisamos nossas referências, educamos nossas crianças e atuamos profissionalmente. Como pai, educador e alguém que atravessou décadas de cultura machista transformada em entretenimento, vejo em casos como o do Grok menos um desvio tecnológico e mais como um espelho ampliado das nossas contradições. Daqui a 20, 30 anos, o que será que nossos filhos e filhas irão nos ensinar? Fica aqui a reflexão sobre o que fizemos ou sobre o que podemos fazer para não repetir violências e educar para outra cultura.
Confira abaixo outras dicas da semana!

Imagem gerada por IA

#1 Quando o importante não é o resultado da ferramenta, mas o que estamos fazendo com o uso da tecnologia.
Dados do jornal The New York Times revelam que em nove dias o Grok publicou 4,4 milhões de imagens com IA, sendo 40% com conteúdo sexualizado de mulheres.
Fonte: Café da manhã da Folha

#2 Moltbook e os riscos da prática de “vibe coding” na nova rede social para Agentes de IA
Prática de desenvolvimento de softwares com base no uso exclusivo de inteligência artificial, abre espaço para limites da tecnologia e princípios básicos de segurança.
Fonte: Convergência Digital e Motobook.com

#3 Redes Cordiais e ITS Rio promovem LIVE no Youtube sobre volta às aulas e foco na proteção digital de crianças e adolescentes
Encontro acontece dia 5 de fevereiro e será transmitido às 19h com apresentação de achados sobre o Relatório Redes de Proteção 2025.
Fonte: Instituto Tecnologia e Sociedade

#4 Alternativas para projetar planos de aula com tecnologia, pedagogia crítica e valorização da cultura de cada aluno
Relatório de Stanford questiona soluções mágicas de EdTechs e aponta caminhos para socialização, formação ética e aprendizado para trabalhos em grupo em sala de aula.
Fonte: Standord Social Innovation Review

#5 Débora Garofalo, educadora de SP, é eleita professora mais influente do mundo em evento em Dubai
Premiada pela Varkey Foundation nesta semana, brasileira relembra trajetória com projeto de robótica a partir da sucata, que virou política pública, e práticas inovadoras.
Fontes: Correio Braziliense e Instituto Porvir

DICA DE LEITURA » 📚
Reler Chimamanda em 2026, em meio a casos como este do Grok e todo o parangolé que envolve a cultura digital desta geração de crianças e adolescentes é também um convite a educar para o questionamento crítico das telas: reconhecer violências disfarçadas de piadas e brincadeiras, falar de consentimento, respeito e autonomia como práticas diárias e rever, também, modelos de comportamento que estamos reproduzindo. Para quem é pai, mãe, responsável ou educador, o manifesto é um gatilho positivo para conversas difíceis que não podem ficar para depois.
Recomendo.
» PARA EDUCAR CRIANÇAS FEMINISTAS, UM MANIFESTO
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2017


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